Em 1981, quando praticamente todo fliperama era uma competicao de tiros, a Konami lancou um jogo em que a unica missao era atravessar uma rua e um rio sem morrer. Frogger nao tinha armas, nao tinha inimigos para destruir e nao tinha misericordia - e talvez por isso tenha se tornado um dos jogos mais queridos e mais frustrantes da historia.
Um jogo sobre chegar em casa
A Konami, fundada em Osaka em 1969 como empresa de aluguel e conserto de jukeboxes, tinha entrado nos videogames havia pouco tempo quando desenvolveu Frogger. A premissa fugia de tudo o que dominava os saloes: em vez de naves e lasers, um sapo precisando cruzar cinco pistas de transito e depois um rio traicoeiro, ate levar cinco sapos em seguranca as suas tocas.
A escolha era estrategica. Depois que Pac-Man mostrou que jogos sem violencia atraiam mulheres, criancas e casais, criar um heroi simpatico com objetivo compreensivel em dois segundos - 'atravesse a rua' - era abrir o fliperama para todo mundo. Frogger nao pedia reflexo de atirador; pedia timing e leitura de padroes, habilidades que qualquer pessoa podia treinar.
O acordo com a Sega e a Gremlin
A Konami desenvolveu o jogo, mas quem o levou ao mundo foi a Sega, que em julho de 1981 garantiu os direitos exclusivos de fabricacao mundial. Nos Estados Unidos, a distribuicao coube a Sega/Gremlin, subsidiaria de San Diego, que apostou pesado no sapo num momento em que o mercado americano so tinha olhos para jogos espaciais.
A aposta pagou: Frogger ficou entre os arcades de maior bilheteria de 1981 nos EUA e, segundo estimativas baseadas nos registros da epoca, rendeu cerca de US$ 135 milhoes em vendas de gabinetes para a Sega/Gremlin. Para uma subsidiaria que vinha de resultados mornos, o anfibio virou tabua de salvacao - e um dos primeiros exemplos de parceria nipo-americana bem-sucedida na era de ouro dos arcades.
A morte mora em toda parte
A fama de Frogger, porem, vem tanto do carisma quanto da crueldade. Poucos jogos da epoca ofereciam tantas formas de morrer: atropelamento por carros e caminhoes em velocidades diferentes, tartarugas que afundam sem aviso, troncos que carregam o sapo para fora da tela, jacares de boca aberta, cobras, lontras e ate o proprio tempo, que se esgota num piscar de olhos.
O detalhe mais cruel e quase comico: o sapo morre afogado se cair na agua. A decisao, biologicamente absurda para um anfibio, era necessaria para o design - o rio precisava ser tao letal quanto a estrada, ou a segunda metade da travessia nao teria tensao nenhuma. O resultado e um jogo em que a vitoria depende de coreografia perfeita, e cada fase completada parece um pequeno milagre.
Da telona do fliperama para a sala de estar
A corrida pelos direitos domesticos foi vencida pela Parker Brothers, gigante dos jogos de tabuleiro que estreava no mundo dos cartuchos. A versao de Atari 2600, lancada em 1982, recebeu US$ 40 milhoes em pedidos ja no lancamento e vendeu cerca de 4 milhoes de cartuchos ate o fim do ano - o maior sucesso de primeiro ano da historia da empresa ate entao.
Dali em diante, Frogger pulou para praticamente toda plataforma existente: Intellivision, ColecoVision, computadores de 8 bits e, decadas depois, remakes em 3D como Frogger: He's Back (1997), que vendeu mais de um milhao de copias no PlayStation e provou que a formula da travessia ainda funcionava para uma nova geracao de jogadores.
Seinfeld e a permanencia cultural
Em 1998, o sapo ganhou seu momento definitivo de cultura pop no episodio 'The Frogger', de Seinfeld: George Costanza descobre que seu recorde adolescente ainda esta gravado numa maquina de Frogger prestes a ser vendida e decide atravessar uma rua movimentada empurrando o gabinete ligado - recriando, sem perceber, o proprio jogo. A cena virou uma das mais lembradas da serie.
Essa e a medida da permanencia de Frogger: mais de quatro decadas depois, o jogo segue sendo referencia imediata para 'atravessar sem ser atingido', citado em series, memes e estudos de design sobre clareza de objetivos. Nao ha tiro, nao ha chefe final, nao ha enredo - apenas um sapo, uma rua e um rio. As vezes e so disso que um classico precisa.
Você sabia?
- O sapo de Frogger morre afogado se cair na agua - um absurdo biologico mantido de proposito para que o rio fosse tao perigoso quanto a estrada.
- A versao de Atari 2600, da Parker Brothers, recebeu US$ 40 milhoes em pedidos no lancamento e vendeu cerca de 4 milhoes de cartuchos em 1982.
- No episodio 'The Frogger', de Seinfeld, George empurra um gabinete ligado pelo transito para preservar seu high score - recriando o proprio jogo na vida real.
Fontes e leituras
- Steven L. Kent, The Ultimate History of Video Games (2001)
- Roberto Dillon, The Golden Age of Video Games (2011)
- The International Arcade Museum / Museum of the Game, registros de Frogger (1981)