Poucos jogos antigos tem a sorte do Jogo Real de Ur: alem de tabuleiros fisicos preservados, um escriba babilonio anotou como jogar, mais de mil anos depois de o jogo ter sido criado. Essa combinacao rara de arqueologia e texto explicativo faz dele um dos jogos de tabuleiro mais bem documentados da Antiguidade.
As tumbas reais de Ur
Entre 1922 e 1934, o arqueologo britanico Leonard Woolley escavou o antigo cemiterio real da cidade sumeria de Ur, no atual sul do Iraque. Entre joias, instrumentos musicais e objetos funerarios, Woolley encontrou varios tabuleiros de jogo elaborados, com incrustacoes de concha, lapis-lazuli e calcario vermelho, datados de aproximadamente 2600 a 2400 a.C.
Esses tabuleiros tinham um formato caracteristico: um bloco retangular maior de 4 por 3 casas ligado por uma 'ponte' estreita de duas casas a um bloco menor de 2 por 3, somando 20 casas ao todo. O desenho era tao distintivo que pecas semelhantes acabaram sendo identificadas em sitios arqueologicos de todo o Oriente Medio antigo.
A tabuinha que salvou as regras
Durante decadas, arqueologos sabiam como era o tabuleiro, mas nao como se jogava. A resposta apareceu numa tabuinha cuneiforme babilonica, escrita por volta de 177 a.C. pelo escriba Itti-Marduk-balatu - quase dois mil anos depois dos exemplares de Ur terem sido enterrados.
A tabuinha ficou decifrada de forma incompleta por muito tempo, ate que Irving Finkel, curador do departamento do Oriente Proximo Antigo do British Museum, conseguiu reconstruir as regras completas na decada de 1980, cruzando o texto cuneiforme com os tabuleiros originais. Foi um dos raros casos em que um jogo de milhares de anos atras pode ser jogado hoje com razoavel confianca de que essas sao, de fato, as regras usadas pelos antigos jogadores.
Como se joga
Cada jogador tem sete pecas que precisam percorrer um caminho fixo pelas 20 casas do tabuleiro, incluindo o trecho compartilhado do meio, onde os dois jogadores podem se encontrar e capturar pecas adversarias. O movimento e definido por quatro dados em formato de tetraedro (piramide de quatro faces), com dois vertices marcados - uma forma primitiva, porem eficaz, de gerar aleatoriedade.
Casas marcadas com uma roseta funcionam como pontos seguros, onde a peca nao pode ser capturada e o jogador ganha uma jogada extra. A mecanica de corrida com capturas e casas seguras lembra fortemente jogos posteriores da familia do gamao, o que levou historiadores a considerar o Jogo Real de Ur um possivel ancestral distante dessa linhagem.
Um jogo que atravessou continentes
Tabuleiros com o mesmo desenho de 20 casas foram encontrados em locais tao distantes quanto o Egito, Chipre, Creta e ate no vale do Indo, sugerindo que o jogo viajou junto com rotas de comercio da Antiguidade por mais de mil anos. Em algumas dessas regioes, o formato do tabuleiro foi adaptado, mas a logica basica de corrida e captura se manteve reconhecivel.
Hoje o Jogo Real de Ur pode ser jogado com replicas vendidas por museus e editoras de jogos, e ficou ainda mais conhecido em 2007, quando Irving Finkel disputou uma partida publica contra o entao apresentador da BBC Tom Scott usando as regras reconstruidas - um raro encontro ao vivo entre um jogo de quatro milenios e meio e uma audiencia moderna.
Você sabia?
- As regras completas do Jogo Real de Ur so foram reconstruidas na decada de 1980 por Irving Finkel, do British Museum, a partir de uma tabuinha cuneiforme escrita quase dois mil anos depois dos tabuleiros originais.
- O jogo usava dados em formato de tetraedro (piramide de quatro lados) em vez dos cubos que conhecemos hoje.
- Tabuleiros com o mesmo desenho de 20 casas foram encontrados desde o Egito ate o vale do Indo, mostrando o alcance comercial e cultural da Mesopotamia antiga.
Fontes e leituras
- Irving Finkel, curador do British Museum, reconstrucao das regras a partir de tabuinha cuneiforme babilonica (decada de 1980)
- Leonard Woolley, relatorios de escavacao do Cemiterio Real de Ur (1922-1934)
- The British Museum - colecao de jogos da Mesopotamia antiga