Star Wars da Atari: o canto do cisne dos graficos vetoriais

Com vetores coloridos, vozes digitalizadas do filme e um cockpit que fechava o jogador dentro da fantasia, o Star Wars de 1983 foi o auge da tecnologia vetorial nos arcades - e tambem seu ultimo grande momento.

Em maio de 1983, seis anos depois de Luke Skywalker destruir a Estrela da Morte no cinema, a Atari colocou qualquer pessoa com uma moeda no lugar dele. Star Wars, o arcade, reproduzia o ataque final do filme em graficos vetoriais coloridos, com as vozes dos atores saindo dos alto-falantes e, na versao de luxo, um cockpit fechado que engolia o jogador. Foi o ponto mais alto da tecnologia vetorial nos fliperamas - e, quase imediatamente, o comeco do seu fim.

De Warp Speed a Estrela da Morte

O jogo nao nasceu como Star Wars. Desde o comeco da decada, a Atari mantinha em desenvolvimento um projeto de combate espacial em 3D chamado Warp Speed, que patinava sem encontrar uma forma final. Quando a empresa fechou com a Lucasfilm, em 1982, a licenca da maior franquia do cinema, a decisao foi pragmatica: converter o prototipo em um jogo do filme. A lideranca coube a Mike Hally, engenheiro formado em Santa Clara que entrara na Atari pela divisao de pinball e ja havia trabalhado no vetorial Gravitar.

A equipe tinha nas maos um roteiro pronto - o ataque a Estrela da Morte de Uma Nova Esperanca - e o transformou em tres atos jogaveis: o combate contra os cacas TIE no espaco, o sobrevoo da superficie da estacao varrida por torres de laser e, por fim, a corrida pela trincheira ate o exaustor termico. A estrutura em loop, com as tres fases se repetindo em dificuldade crescente, era pura gramatica de arcade aplicada a um dos momentos mais famosos do cinema.

Vetores coloridos e um coprocessador para a matematica

Em vez de desenhar imagens com pixels, como os jogos raster, o hardware vetorial tracava linhas continuas de fosforo diretamente no tubo do monitor - o mesmo principio de Asteroids e Tempest. Para Star Wars, a Atari usou seus novos monitores coloridos Amplifone, de 19 polegadas no gabinete comum e 25 no cockpit, capazes de linhas vivas e brilhantes que nenhuma tela raster da epoca igualava em nitidez de contorno.

Por tras do monitor, um processador 6809 cuidava do jogo enquanto a geometria tridimensional - girar, aproximar e projetar os modelos em arame dos cacas TIE e da trincheira - ficava a cargo do Mathbox, um coprocessador matematico construido com chips bit-slice que a Atari vinha refinando desde Battlezone. Era uma arquitetura sofisticada e cara, desenhada para uma unica especialidade: dar fluidez a um 3D que os concorrentes so conseguiam sugerir.

As vozes do filme dentro do gabinete

O que mais impressionava, para muitos jogadores, nem eram as linhas coloridas: era ouvir Obi-Wan Kenobi. O jogo trazia falas digitalizadas extraidas do filme, reproduzidas por chips de sintese de voz - frases como a classica exortacao a usar a Forca, alem de Darth Vader e do alerta de R2-D2. Num salao dominado por bipes e explosoes sinteticas, um gabinete que falava com as vozes do cinema era um ima de moedas. A trilha de John Williams, recriada pelo hardware sonoro, completava a imersao.

O corpo do jogo estava a altura. O controle era um manche em formato de garfo, com gatilhos e botoes de disparo, inspirado nos controles de voo - uma novidade tatil que virou assinatura. E a versao cockpit, desenhada pelo projetista industrial Mike Jang com detalhes que ecoavam a mecanica da Millennium Falcon, fechava o jogador numa cabine com o monitor de 25 polegadas: o mais perto de pilotar uma X-Wing que a tecnologia de 1983 permitia.

Sucesso em plena tempestade

Star Wars chegou aos saloes num pessimo momento da industria: 1983 foi o ano do colapso do mercado domestico americano, que arrastou a propria Atari a prejuizos historicos, e os arcades ja davam sinais claros de esfriamento. Mesmo assim, o jogo foi o maior lancamento da Atari naquele ano, liderando as paradas das revistas do setor, com producao de cerca de 12,7 mil gabinetes - 10.245 uprights e 2.450 cockpits, numeros modestos diante dos 55 mil de um Defender, mas expressivos para 1983.

O jogo ganhou sobrevida longa: uma conversao caseira para os principais consoles e computadores, a continuacao raster Return of the Jedi (1984) e, em 1985, The Empire Strikes Back, vendido como kit de conversao para os gabinetes originais - o ultimo jogo vetorial da Atari. Nas listas retrospectivas, o Star Wars de 1983 aparece com frequencia entre os melhores arcades ja feitos, e cockpits originais restaurados disputam lances altos entre colecionadores.

Por que os vetoriais desapareceram

O paradoxo de Star Wars e que seu triunfo tecnico nao salvou a tecnologia que o tornou possivel. Monitores vetoriais coloridos como o Amplifone eram caros de fabricar e notoriamente delicados: as secoes de alta tensao falhavam com frequencia, e operadores de arcade, que viviam de maquinas funcionando, se cansaram de consertar telas enquanto os gabinetes raster trabalhavam sem drama. Alem disso, vetores desenhavam linhas, nao superficies - enquanto o raster evoluia para cenarios coloridos, personagens detalhados e efeitos que o publico passou a preferir.

O crash de 1983 deu o golpe final: com receitas despencando, ninguem mais podia bancar hardware especializado e fragil para um mercado encolhendo. Em poucos anos os vetoriais sumiram das linhas de producao, sobrevivendo apenas na memoria e nas maquinas preservadas. Star Wars ficou como epitafio perfeito: a demonstracao de ate onde aquela tecnologia podia chegar, feita no exato momento em que o mundo deixava de precisar dela.

Você sabia?

  • Star Wars comecou como Warp Speed, um projeto de combate espacial 3D sem licenca que a Atari desenvolvia desde o inicio da decada - o filme foi enxertado depois.
  • A versao cockpit usava um monitor vetorial colorido de 25 polegadas e detalhes plasticos inspirados na Millennium Falcon; cerca de 2.450 unidades foram produzidas, hoje disputadas por colecionadores.
  • The Empire Strikes Back, de 1985, foi vendido como kit de conversao para os gabinetes de Star Wars e entrou para a historia como o ultimo jogo vetorial lancado pela Atari.

Fontes e leituras

  • Steven L. Kent, The Ultimate History of Video Games (2001)
  • Jed Margolin, The Secret Life of Vector Generators - relato tecnico do engenheiro de hardware da Atari
  • The Strong National Museum of Play e paradas das revistas RePlay e Play Meter (1983)
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